quinta-feira, 9 de julho de 2015

Ainda dá para gostar do futebol ?

Por Patrick Cruz
Jornal Valor Econômico

O torcedor desceu do carro amparado por muletas e por seu filho ,que dirigiu o automóvel.Era um senhor de costas arqueadas,andar vacilante.Aquela seria sua primeira visita à BSBios Arena ,o novíssimo estádio do Sport Clube GAÚCHO de Passo Fundo RS ,com inauguração prevista para o mês que vem .O torcedor relevou o fato do clube ,outrora da elite do futebol do Rio Grande do Sul ,hoje disputa a terceira divisão do estadual .Tampouco quis saber de ajuda .Pediu ao filho que não o segurasse para andar" Não,aqui quero entrar sozinho ".

Foi o que fez : CUMPRIU consigo mesmo o compromisso de Testemunhar que o GAÚCHO , SEU clube do coração ,estava vivo.Em uma tarde perdida de abril, em um episódio com poucas testemunhas ,fez com SUAS próprias pernas , ignorando a idade ,o corpo,tudo.A despeito da Fifa,Cbf ,dos resultados arranjados ,dos elefantes brancos construídos para a Copa do Mundo ,do baixo nível técnico do Campeonato Brasileiro ,dos públicos minguantes ,da multiplicação de volantes e escassez de cérebros,o Futebol vive .Mas como ?

No dia 27 de maio, uma operação orquestrada pelo FBI ,a polícia federal americana ,levou a prisão de alguns dos mais altos dirigentes da FIFA ,a entidade que controla o esporte mais popular do planeta .entre os detidos estava José Maria Marin, ex-presidente da CBF .Foi um desfecho dramático para anos de suspeitas e acusações de corrupção na escolha de países sedes da Copa do Mundo e de desvio de dinheiro em acertos comerciais da FIFA .

Esses parecem ser elementos eloquentes para certa desilusão de torcedores com a bola .Não é o que diz a vida real .Os 56 mil torcedores que no domingo foram ao Mineirão assistir Atlético Mineiro x Joinville – Um jogo secundário da ainda morna edição 2015 do brasileirão-contradizem aqueles que velavam o futebol por antecipação.Assim como contradisse os pessimistas a visita do torcedor ao novo estádio do Gaúcho, em um ato de devoção que os holofotes da primeira divisão nem sequer supõem existir.

Na fala de Gilmar Rosso ,presidente do Gaúcho , a entrelinha que se enxerga é que o futebol é popular apesar das entidades que o controlam e não por causa delas .
”Não gosto de Futebol .Gosto é do Gaúcho “ ,diz. A história do dirigente e de seu envolvimento com a reconstrução do clube é um dos casos que respondem a pergunta que abre este texto.Se é possível gostar de futebol ?  Não há dúvida.

Rosso assumiu a presidência do Gaúcho em 2010 .Sua missão número 1 : assegurar a própria existência do clube . O Gaúcho estava afastado dos gramados e tinha que resolver um imbróglio de tons surgidos em 1996.Naquele ano,um menino acidentou-se nas piscinas do complexo esportivo do antigo estádio Wolmar Salton (o novo estádio mantém o nome do anterior).para arcar com as despesas do tratamento ,o Gaúcho precisava pagar uma pensão à família do garoto.O acordo não foi integralmente cumprido,o estádio foi a leilão e o clube ,que já tinha perdido crédito e espaço na elite do futebol de seu Estado , ficou também sem casa.

Depois de anos de negociações entre o Gaúcho, a Justiça e os credores do clube – havia cerca de 300 ações de penhora do estádio para pagamento de débitos -, em 2012 fez-se a luz : um hospital da cidade comprou a área do antigo estádio .
O dinheiro da venda foi para a Justiça ,que ficou responsável pelo pagamento –com descontos – a todos os credores ,incluindo a família do garoto.Status Atual : o Gaúcho não deve um único centavo a quem quer que seja.
Como os credores aceitaram as propostas de desconto nos débitos para receber o que o clube lhes devia ,o Gaúcho ainda ficou com um bom dinheiro – em torno de R$ 3 milhões – para começar a se reconstruir. O clube optou por ter novamente uma casa para chamar de sua , e assim começou a construção do novo estádio.Era uma questão de Honra .

A disposição do clube e de seu presidente de não apenas colocar o time em campo, mas fazê-lo sem varrer os débitos para debaixo do tapete ,deu credibilidade aos esforços .Empresários ,advogados e outras pessoas de bom nome em Passo Fundo se juntaram ao presidente para tentar pôr o Gaúcho em pá. Um dos parceiros de primeira hora é a BSBios,maior produtora de biodiesel do país, com faturamento anual superiora R$ 1 bilhão .A empresa não só é patrocinadora como assinou em acordo de “naming right “ com o clube : o complexo esportivo (que inclui o Wolmar Salton e o Ginásio Teixeirinha,cuja concessão foi obtida pelo clube em acordo com a prefeitura ) já é chamado de BSBios Arena .

A empresa sabe que não vende uma gota a mais de biodiesel por causa do patrocínio,mas a matemática não é exclusivamente comercial . “O projeto do clube é sério, e um dos retornos que temos é o de fazer parte de algo positivo para a cidade.A marca do Gaúcho é muito forte “, afirma Erasmo Battistella, presidente da BSBios .

Gilmar Rosso não é remunerado pelo que faz ,enfrentou um processo tenso de renegociação de débitos e , como pessoa razoavelmente bem informada sobre o mundo que o cerca ,sabe que o lado obscuro da bola existe .
Mas, para ele, não há dúvida de que o futebol mantém seu apelo desde sempre “ Cresci indo ao estádio com meu pai” , conta . “ Era lá que o Italiano rígido se soltava,ria ,chorava,cantava e falava os palavrões que não falava em casa . Acho que é no estádio que você realmente conhece seu pai “ .

O Presidente do clube sempre torceu pelo Gaúcho ,então sabe que estar vivo já é um Título .



   

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